Porque odeio ferramentas de gerenciamento

Para as pessoas que me conhecem melhor, esse título não é nenhuma novidade, na verdade eu repito esta frase de tempos em tempos só pra me lembrar do quanto eu odeio ferramentas de gerenciamento de projetos. Também já  adianto que este post será grande e nem todos vão concordar tenho certeza.

Em todos os eventos relacionados a desenvolvimento de software sempre tem uma pergunta da platéia sobre que ferramentas são usadas para gerenciar as equipes que usam métodos ágeis. Algumas estão aqui:

- Como gerar relatórios e ver como estão as coisas?
- Como ter certeza de que um release será entregue? Eu consigo ver isso quando uso o M$ Project!
- Como podemos controlar as pessoas que são alocadas parcialmente em diversos projetos sem uma ferramenta?

Ai quando penso nas respostas vejo que o título deste post não esta sendo verdadeiro, na verdade não é que eu não goste de ferramentas de gerenciamento, eu não gosto de ferramentas de uma forma geral. Isso é tão verdade que tenho uma resistência muito grande para aceitar tools nas minhas equipes, isso aconteceu recentemente quando minha equipe no Yahoo! sugeriu usarmos o Campfire para registrar os bate papos da galera e os links que são trocados, assim todos podem ter um log do que aconteceu durante o dia. Tenho uma grande preocupação de que uma ferramenta vá efetivamente adicionar valor ao trabalho das pessoas e não apenas gerar mais um passo no dia a dia delas que não seria necessário se não fosse o relatório para o gerente ou diretor, que na maioria das vezes nem lê estes relatórios.

O que mais me chateia neste tipo de pergunta é que existe um fato que muitas vezes não admitimos,  as pessoas preferem acreditar muito mais no que uma ferramenta mostra do que se um “humano” apresentasse a mesma informação. As pessoas preferem conversar por um chat ou IM do que levantar e ir conversar cara a cara ou no pior dos casos por telefone. Com o decorrer dos tempos e a popularização de diversas tecnologias passamos a nos apoiar nessas ferramentas de forma desmedida, em detrimento do relacionamento e do trabalho em equipe. Neste ponto acho importante fazer uma mea culpa, eu sou viciado em tecnologia e uso meu iPhone o dia todo, o tempo todo, twittando, mandando SMSs e navegando, mas isso não me tira o dever de interagir com meus colegas e amigos entre uma twitada e outra :-)

Quando falamos em desenvolvimento ágil estamos falando de pessoas (vejam o vídeo do Danilo Bardusco),  nestas equipes preferimos usar a comunicação verbal do que documentos com happy paths e paths alternativos e preferimos desenvolver o que sabemos com clareza do que tentar prever o futuro por seis meses, acredito muito na premissa que li em uma entrevista do J Allard (head de games da Microsoft e responsável pelo projeto do Xbox) “if it’s a possibility that you may fail, then fail fast and learn“.

Voltando a questão de gerenciamento por ferramentas, é importante dizer que nunca trabalhei com equipes espacialmente distribuídas, já vi várias aqui no Yahoo!, mas eu nunca gerenciei uma delas. Então toda a minha experiencia vem de trabalhar com equipes alocadas no projeto, fora quando eu trabalhava com empresas terceiras de três letrinhas, onde experimentei na própria pele o pesadelo das malditas fábricas de software.

Sendo assim, quando desenvolvemos algumas coisas, eu basicamente uso o Quadro branco com post-its ou cartões (como prefere o Phillip Calçado). Mas em alguma situações admito que é preciso gerar algum tipo de report para áreas gerenciais. Na minha opinião não existe nada melhor do que ver o quadro, nada é mais claro para ver como as coisas estão andando do que o quadro com as Histórias, tarefas e o burndown chart.

Atualmente estou usando um Twiki que gera os principais gráficos de acompanhamento do sprint, é exatamente da mesma forma que usava quando trabalhei na Globo.com, lembro que na época existia uma vontade ensandesida de comprar alguma ferramenta para que as equipes pudessem atualizar suas tarefas e assim gerar relatórios fantásticos de custos e performance, bugs por pessoa, por linha de código ou por piscada de olho do desenvolvedor.

O problema na verdade não esta no relatório ou na ferramenta, o problema real é que as pessoas não confiam umas nas outras, e elas se apóiam em tecnologias e ferramentas para se blindar e muitas vezes se armar e poder desmascarar uns aos outros. Agora como é que se pode trabalhar em um ambiente em que não existe confiança, onde as pessoas ficam falando pelas costas umas das outras. Este é O PROBLEMA, e as ferramentas de gerenciamento não resolvem isso, só agravam. Não é pagando US$566.40 dólares por usuário/ano em uma ferramenta que se resolve esse isso, porque nenhuma ferramenta pode arrumar isso, só uma conversa clara, limpa e verdadeira é que pode ajudar a resolver essa situação.

Havendo transparência e confiança, pode-se trabalhar para arrumar os nossos defeitos e outros problemas, afinal de contas somos humanos e não máquinas.

Muitos podem não concordar comigo, não tem problema, acho que todos temos as nossas opiniões e acho legal que tenhamos divergências, mas eu já sofri muito e tentei muito usar ferramentas na minha vida. Mas cansei, elas nunca funcionaram comigo, e olha que já trabalhei com diversas empresas CMM5 e com três letrinhas que são super premiadas internacionalmente e não adiantou, os M$ Projects nunca diziam a verdade e tínhamos sempre que “gambiarrar” o projeto, onde geralmente o que era cortado de cara era a qualidade e as pessoas eram tratadas como utensílios. “Ah este recurso aqui esta alocado 13% em requisitos deste projeto, mas ele atua como tester 35% neste outro projeto aqui” QUEM é que em sã consciência acredita que um humano consegue se controlar desse jeito (13% para um lado, 35% para outro, 26,5% para tal coisa) isso é muito idiota.

Por ter errado muito na minha vida e ter caído no conto da carochinha muitas vezes, pensando que selos e certificados significavam alguma coisa, eu aprendi a ter aversão a ferramentas e processos burocráticos, pesados e principalmente mentirosos. Tem uma frase que uso muito e que ouvi pela primeira vez de um diretor de uma grande empresa de comunicação: “Cachorro mordido por cobra, tem medo de salsicha!“.

Hoje em dia o que mais vale pra mim é estar bem com o que estou fazendo, discutir de forma construtiva com minha equipe e outras pessoas e poder trabalhar com coisas legais, mesmo sabendo que nem sempre fazemos coisas legais 100% do tempo. #prontofalei.

12 Comments

Andre Lima  on December 5th, 2008

Antônio,

Tive a honra de lhe conhecer no “Falando em Agile 2008″, e cara vc está certinho….

Admiro cada vez mais….

Bruno Pereira  on December 5th, 2008

A interação pessoal é muito importante mesmo. Além disso, a melhor coisa que eu acho que um gerente pode fazer é melhorar as pessoas a seu redor, então esse contato com o time é mais importante ainda.

Não tive a sorte de trabalhar com você nos 2 anos e meio em que fiquei alocado na Globo.com, mas com certeza levei para a vida o exemplo de como você conseguia contagiar todos a sua volta :)

coelhotv  on December 5th, 2008

toninho, existe uma verdade no teu desabafo qdo exiges confianca no ambiente de trabalho por meio de interacao social e contato humano… mas discordo q ferramentas web de gestao existam para tentar eliminar isso.
muito pelo contrario, acredito realmente q seu principal beneficio eh dar visibilidade ao q esta sendo feito por todos e, melhor, potencializar a “inteligencia coletiva” da organizacao, armazenando o conhecimento produzido nas interacoes e compartilhando os sucessos (e falhas) com todos.
desde q o ser humano inventou as “ferramentas”, seja pedra lascada ou softwares, elas podem ser usadas pro bem ou pro mal, o q define essa linha tenue eh a intencao, nao o meio. ;)

abracao!

Antonio Carlos Silveira  on December 6th, 2008

Fala Coelho,

Eu não disse que elas existem para exclusivamente eliminar a interação social, nem falei especificamente de ferramentas web de gestão apenas citei o exemplo do Mingle. Até porque se eu pudesse eleger o software que mais odeio este seria o M$ Project COM CERTEZA, e em segundo fica o IE6. :-)

Voltando ao assunto, o que disse é que estas ferramentas geralmente fazem as pessoas se esquivarem de suas responsabilidades, essas tools iludem parecendo resolver vários problemas, mas sem confiança mútua ninguém vai acreditar nos números que foram imputados de um jeito ou de outro. E tem uma coisa que aprendi na vida é que confiança não se compra, se conquista e nao se conquista confiança através de ferramentas de softwares mas sim por estar ao lado das pessoas, trabalhando com elas, não apenas como um gerente mas como parte do time.

Tb acredito que se uma ferramenta não adiciona nada no seu dia a dia, não torna vc mais produtivo ou o produto do seu trabalho melhor ou a sua vida melhor, então ela não serve para nada.

Sejamos pragmaticos, não tem nada melhor do que um produto entregue rodando perfeitamente com qualidade. Isso é o que todos queremos ver no final, e que todos os que trabalharam naquele projeto estejam felizes e realizados.

Claro que há outros problemas em todas as empresas além da falta de confiança, um destes são as agendas duplas ou triplas que cada pessoa possui, isso nem ferramentas nem nada pode arrumar. Todos nós temos nossos objetivos, uns querem ser gerentes, outros querem ser famosos, outros querem aprender, ficar ricos, morar em outro país, etc. Acho que se não tivermos muito cuidado o que pode acontecer é termos uma empresa cheia de pessoas que não tem mais um objetivo em comum, que acreditam em uma visão e missão a ser atingida, mas sim que seguem seus interesses individuais, isso ajuda (muito rapidamente) a envenenar a empresa por dentro, pelos corredores, e tornar tudo o que acontece destrutivo e negativo.

E no final opinião é opinião, tem os que gostam de gestão por software tem os que gostam mais de gestão por pessoas.

Guilherme Cirne  on December 6th, 2008

Antônio,

Excelente post! Concordo com tudo o que vc disse e assino em baixo!

Bruno Souza  on December 7th, 2008

Pois é…

Como resolver o cochicho pelas costas ou situações em que, mesmo interagindo olho-no-olho, a pessoa expõe uma opinião na sua frente e, 5 min depois uma opinião completamente divergente por trás? Vai muito além da questão ‘confiança’…

Objetivos pessoais sempre canibalizando os corporativos. Isso é extremamente desanimador. E é a forma mais comum de os fracos conquistarem espaço!

links for 2008-12-09 « pabloidz  on December 9th, 2008

[...] Porque odeio ferramentas de gerenciamento Antonio Carlos Silveira (tags: project productivity) Blogroll [...]

Guilherme Chapiewski  on December 9th, 2008

Quase chorei :)

É difícil de explicar pros outros mas é muito fácil de reconhecer quando alguém é realmente ágil.

A mentalidade de usar alguma coisa somente se for necessário ou se for realmente agregar valor é que faz a diferença entre ser ágil/focar no problema certo ou perder tempo.

Essas ferramentas que mostram apenas números muitas vezes fazem com que as pessoas se eximam da responsabilidade de entender o contexto das coisas e façam julgamentos muitas vezes equivocados.

Como já dizia o velho manifesto, “Individuals and interactions over processes and tools” :)

[ ]s, gc

Dudu P  on December 19th, 2008

100% de acordo. Tive experiência ótima como PMO em uma empresa de duas letrinhas, e foi muito bom, mas tudo foi por água abaixo quando o Project começou a mandar nas coisas e nos projetos, ao invés de reportar.

E é o que invariavelmente acontece: a direção se inverte, e ao invés do fluxo projeto > ferramenta, a ferramenta passa a mandar no projeto. Trabalha-se pra preencher linhas, pra atingir milestones, e não pra se fazer um bom trabalho.

É como essas ferramentas de GTD. Já tentei usar 500 vezes, não funciona, já desencanei. Se é importante, eu vou lembrar. Se eu começo a colocar todas as coisas que eu tenho que fazer, vou ser inundado de fracassos.

O Seinfeld fala muito do calendário inverso, que é ao invés de ficar marcando na folhinha quantos dias você tem pela frente, você faz o contrário, marca quantos você já fez. É muito mais confortante você ver que conseguiu ficar uma semana de dieta, e se sentir orgulhoso da sua relização, do que encarar um calendário com 120 dias à frente cheio de coisas pra fazer.

Esta lógica é universal. Uma coisa é vc anotar o que vc tem que fazer, a outra é virar escravo de uma ferramenta.

Antonio Carlos Silveira  on December 22nd, 2008

Muito Bom Dudu, Gostei do “calendário inverso” do Seinfeld :-)

Alexandre Garcia  on January 7th, 2009

Bom, este post cai bem agora no começo do ano, tempo de reflexões. Assim como no seu post, também gostei muito do que ouvi aqui: http://cbn.globoradio.globo.com/cbn/wma/wma_e.asp?audio=2009/colunas/max_090102.wma

Abraços,
Garcia.

Zauza  on December 9th, 2009

Olá Antônio Carlos. Não te conheço. Não faço parte do seu círculo de social confiança, tampouco das corporações pelas quais você passou.

Mas olha, comungo em gênero, número e grau com o que você disse, defende e acredita. Parodiando um ditado norte-americano, costumo dizer que “Um idiota com ferramenta ainda continua sendo um idiota”.

Parabéns pela alto grau de elucidação de suas idéias. Não dê bola para os acadêmicos de plantão e muito menos ao neo-fascistas-nerds que só acreditam na sopa de letrinhas que virou a nossa área …

Leave a Comment